domingo, 22 de dezembro de 2013

Papa Francisco: "Nossa relação com Deus gosta do silêncio"


“Somente o silêncio pode guardar o mistério do caminho que o homem percorre com Deus. E que o Senhor nos dê a graça de amar o silêncio, longe de qualquer publicidade”: este foi o fulcro da homilia proferida pelo Papa na missa da manhã de sexta-feira, 20, na Casa Santa Marta. A reflexão de Francisco se inspirou nos momentos da Anunciação, proposta no Evangelho do dia. “O Senhor sempre cobriu o mistério, nunca fez publicidade dele; isto não seria cristão. E também o mistério da maternidade virginal de Maria foi coberto, por toda a vida! A sombra de Deus em nossas vidas nos ajuda a descobrir o nosso mistério do encontro com o Senhor, do caminho da vida com Ele”.

“Cada um de nós – disse ainda o Papa – sabe como o Senhor age misteriosamente em nosso coração e em nossa alma. E qual seria a nuvem, o poder, o estilo do Espírito Santo para cobrir o nosso mistério?”, questionou, respondendo: “Esta nuvem em nossa vida se chama silêncio, aquilo que se estende sobre o mistério da nossa relação com o Senhor, da nossa santidade e dos nossos pecados. Não se pode explicar este mistério, mas quando não existe silêncio em nossas vidas, o mistério se perde”.
“A Mãe de Jesus foi o perfeito ícone do silêncio, desde o anúncio de sua maternidade ao Calvário”,
apontou o Papa, lembrando de quantas vezes ela não revelou seus sentimentos para guardar o mistério da relação com o seu Filho, até o silêncio mais cruento, “aos pés da Cruz”: “O Evangelho não nos diz se ela pronunciou ou não alguma palavra... estava silente, mas dentro de seu coração, quantas coisas dizia ao Senhor: ‘Você me disse que ele seria grande, que teria reinado para sempre e agora... o vejo ali’. Maria era humana! E talvez tivesse vontade de dizer: ‘Fui enganada!, mas Ela, com o silêncio, ocultou o mistério que não entendia e com seu silêncio, deixou que seu mistério crescesse e florescesse na esperança”, concluiu o Papa.

Papa Francisco na Missa de seu aniversário 17 de dezembro de 2013

"A santidade está em deixar que o Senhor escreva a nossa história", disse Papa Francisco

Na homilia, o Papa inspirou-se no Evangelho do dia, que fala da genealogia de Jesus, para falar sobre a presença do Senhor na nossa vida:“Alguém comentou uma vez: ‘Mas este trecho do Evangelho parece uma lista telefônica’! Mas não, é toda uma outra coisa: Este trecho do Evangelho é pura história e tem um argumento importante. É pura história, porque Deus, como dizia São Leão Papa, Deus enviou o seu Filho. E Jesus é consubstancial ao Pai, Deus, mas também consubstancial à Mãe, uma mulher. E esta é aquela consubstancialidade da Mãe. Deus se fez história. Deus quis fazer-se história. E conosco. Fez caminho conosco”.
“Após o primeiro pecado no Paraíso – sublinha o Papa – Ele teve esta idéia: fazer caminho conosco”. Chamou Abraão, “o primeiro nomeado nesta lista” e “o enviou a caminhar”. E Abraão “começou aquele caminho”. E depois Isaac, Jacó, Judas. “E assim segue este caminho na história”. “Deus – afirmou o Papa – caminha com o seu povo. Deus não quis vir salvar-nos sem história. Ele quis fazer história conosco”. Uma história – reiterou – que vai da santidade ao pecado. Nesta lista existem santos”, “mas neste elenco existem também pecadores”:
“Os pecadores de alto nível, que cometeram pecados grandes. E Deus fez história com eles. Pecadores, que não responderam a tudo aquilo que Deus pensava para eles. Pensemos a Salomão, tão grande, tão inteligente, e no final, pobrezinho, alí, que não sabia nem como se chamava! Mas Deus estava com ele. E isto é bonito, não? Deus nos é consubstancial. Faz história conosco. Mais ainda: quando Deus quer dizer quem é, diz ‘Eu sou o Deus de Abraão, de Isaac e Jacó’. Mas qual é o sobrenome de Deus? Somos nós, cada um de nós. Ele toma de nós o nome para fazê-lo seu sobrenome. ‘Eu sou o Deus de Abraão, de Isaac, de Jacó, de Pedro, de Marietta, de Armony, de Marisa, de Simone, de todos!’. De nós pega o sobrenome. O sobrenome de Deus é cada um de nós”.
“Ele, o nosso Deus – fez história conosco, pegou o sobrenome do nosso nome”, “deixou-se escrever a história de nós”. “Nós – foi a sua reflexão – escrevemos esta história de graça e pecado e ele vai atrás de nós”. Esta – frisou – é a humildade de Deus, a paciência de Deus, o amor de Deus. É nosso. E isto comove!”. “Tanto amor, tanta ternura, de ter um Deus assim”:
“A Sua alegria foi partilhar a sua vida conosco. O Livro da Sabedoria diz que a alegria do Senhor está entre os filhos do homem, como nós. A proximidade do Natal nos faz pensar: Se Ele fez a sua história conosco, se Ele pegou o sobrenome de nós, se Ele deixou que nós escrevêssemos a história, ao menos deixemos, nós, que Ele escreva a nossa história. E esta é a santidade: ‘Deixar que o Senhor escreva a nossa história’. E isto é um augúrio de Natal para todos nós. Que o Senhor escreva a tua história e que tu deixes que Ele a escreva para ti. Assim seja!”.


 

domingo, 1 de dezembro de 2013

Advento, tempo de esperança e sobriedade

          
  “Vós sabeis em que tempo estamos, pois já é hora de despertar. Com efeito, agora a salvação está mais perto de nós do que quando abraçamos a fé. A noite já vai adiantada, o dia vem chegando: despojemo-nos das ações das trevas e vistamos as armas da luz. Procedamos honestamente, como em pleno dia; nada de glutonerias e bebedeiras, nem de orgias sexuais e imoralidades, nem de brigas e rivalidades. Pelo contrário, revesti-vos do Senhor Jesus Cristo.” (Rm 13,11-14a)
             (...) ‘despojemo-nos das ações das trevas e vistamos as armas da luz’, mas que um convite, São Paulo faz um apelo ao retorno às virtudes. Temos a nossa frente o apelo às virtudes da esperança e da sobriedade. Exigências que se impõe a nós. Uma e outra são virtudes a se desenvolver ao longo do Advento. Entramos no Advento. Já estamos num acorde espiritual. São Paulo nos convida a ‘despertar’ da sonolência espiritual que têm feito muitos fraquejarem frente aos apelos do mundo. Apelos que desviam e arrastam os cristãos para experiências amargas de variadas espécies. Na doutrina cristã católica encontramos o que há de singular para aqueles que praticam as virtudes. Percebemos através de tais práticas, que as virtudes fazem com que a saúde humana se fortaleça a partir da saúde espiritual, que conclama ao cristão a purificação do espírito com a prática do bem. “As virtudes humanas adquiridas pela educação, por atos deliberados e por uma perseverança sempre retomada com esforço, além de ajudar profundamente na integração psicológica profunda, são purificadas e elevadas pela graça divina. Com o auxílio de Deus, forjam o caráter e facilitam a prática do bem. A pessoa virtuosa sente-se feliz em praticar as virtudes; sente-se também desejosa de conhecer sempre mais os meios e as capacitações necessárias para a prática delas.” Diante da prática dos vícios é bem ao contrário. Seja na maledicência; no consumo desenfreado do comer, do beber, do comprar ou do possuir; na drogadição dos inúmeros vícios; tudo isso e muito mais, poderá ter como consequências as doenças físicas, emocionais ou psíquicas, e que nada mais são do que enfermidades de uma vida desregrada. “Não é fácil para a pessoa humana ferida pelo pecado manter o equilíbrio moral e psíquico.” (Autor desconhecido)
                (...) ‘revesti-vos do Senhor Jesus Cristo’. Aí está a chave deste tempo de Advento, desta preparação para o Natal do Senhor. É tempo de Salvação. É tempo de vestirmos as ‘armas da Luz’. Busquemos penetrar neste ‘Mistério de Salvação’ que se inicia com as práticas oracionais e penitenciais. Práticas que curam, salvam e libertam. Lembremos que a salvação trazida por Jesus concede a graça necessária para perseverar na conquista das virtudes. Cada um deve sempre pedir esta graça, recorrer aos sacramentos, cooperar com o Espírito Santo, seguir apelos de Deus de amar o bem e evitar o mal. Temos a nossa frente virtudes a exercitar. Peçamos a Deus e N.Sra. que nos ajudem nesse processo que se inicia neste Advento.
Estela Márcia

 

 

“O Advento nos dá um horizonte de esperança”, diz o Papa Francisco

          
“Na vida de cada um de nós há sempre uma necessidade de recomeçar, de levantar-se, de recuperar o sentido da meta de sua existência”, disse o Papa Francisco na sua alocução que precedeu o Ângelus, baseando-se no Advento e nas leituras deste Domingo.
“Assim para a grande família humana é necessário renovar sempre o horizonte comum para o qual estamos a caminho. O horizonte da esperança! O tempo do Advento, que hoje novamente iniciamos, nos dá o horizonte da esperança, uma esperança que não desilude, porque é fundada sobre a Palavra de Deus”. 
            Neste Primeiro Domingo do Advento, continua o Papa: Um novo ano litúrgico, isto é um novo caminho do Povo de Deus com Jesus Cristo, o nosso Pastor, que nos guia na história em direção ao cumprimento do reino de Deus. Portanto, este dia tem um encanto especial, nos faz provar um sentimento profundo do sentido da história. Redescobrimos a beleza de estarmos todos a caminho; a Igreja, com a sua vocação e missão, toda a humanidade, os povos, as civilizações, as culturas, todos a caminho através das trilhas do tempo. A humanidade, portanto, está a caminho, ee le pergunta, mas para onde? Há uma meta comum ? Qual é essa meta? O Senhor nos responde através do profeta Isaías: “No final dos tempos, o monte da casa do Senhor estará firmemente plantado no mais alto dos montes, e será mais alto que as colinas e todas as nações correrão para ele. Virão muitos povos, dizendo: «Venham! Vamos subir à montanha do Senhor, vamos ao Templo do Deus de Jacó, para que ele nos mostre seus caminhos, e possamos caminhar em suas veredas»”.(Is 2,2-3).
           Para o Papa Francisco, o Profeta Isaías descreve uma peregrinação universal em direção de uma meta comum, que no Antigo Testamento é Jerusalém, onde surge o templo do Senhor, pois a partir daí, de Jerusalém, veio a revelação da face de Deus e da Sua lei . A revelação encontrou em Jesus Cristo a sua realização, e o " templo do Senhor " tornou-se Ele mesmo, o Verbo que se fez carne: é Ele o guia e junto a meta da peregrinação do Povo de Deus; e para a sua luz também os outros povos podem caminhar em direção ao Reino da justiça e da paz. Diz ainda o profeta : De suas espadas eles fabricarão enxadas, e de suas lanças farão foices. Nenhuma nação pegará em armas contra outra, e ninguém mais vai se treinar para a guerra. (2,4). Permito-me, continuou o Papa de repetir essas palavas. Mas quando ocorrerá isso? “Que bonito dia será aquele, quando as armas serão desmontadas para serem transformadas em instrumentos de trabalho. E isso é possível! Vamos apostar na esperança, na esperança da paz, e isso é possível”!
E o Papa chama a atenção para o modelo do comportamento espiritual, do modo de ser e de caminhar na vida, citando a Virgem Maria. Uma simples jovem do interior, que carrega no coração toda a esperança de Deus! No seu ventre a esperança de Deus se fez carne, tornou-se homem, se fez história: Jesus Cristo. O seu Magnificat é o cântico do Povo de Deus a caminho, e de todos os homens e mulheres que esperam em Deus, no poder da sua misericórdia. Deixemo-nos guiar por ela neste tempo de espera e de vigilância ativa.O Santo Padre concluiu concedendo a todos a sua Benção Apostólica,
Estela Márcia (Adaptações)






O Sentido do Advento


O Advento (do latim Adventus: "chegada", do verbo Advenire: "chegar a"), é um tempo de preparação e alegria, de esperança e expectativa, onde nós cristãos aguardam o Nascimento de nosso Salvador Jesus Cristo, o Filho de Deus que vem habitar no meio de nós.  É o primeiro tempo do Ano litúrgico, o qual antecede o Natal do Senhor, a segunda maior festa cristã, pois a primeira é a Páscoa, ou seja a Ressurreição de Jesus. Neste tempo, celebramos duas verdades de nossa fé: a primeira vinda (o nascimento de Jesus em Belém) e a segunda vinda de Jesus (a Parusia). A Igreja comemora a vinda do Filho de Deus entre os homens (aspecto histórico) e vive a alegre expectativa da segunda vinda d’Ele, em poder e glória, em dia e hora desconhecidos (aspecto escatológico). Podemos dizer então que Advento...

Estrutura o Tempo do Advento

·         O tempo do Advento não tem um número fixo de dias e depende sempre da solenidade do Natal.

·         Ele começa na tarde (1ª Vésperas) do primeiro domingo após a Solenidade de Cristo Rei e se desenvolve até o momento anterior à tarde (1ª Vésperas) do Natal.

·         Ele possui quatro semanas e, por isso, quatro domingos celebrativos.

·         O terceiro domingo do Advento é chamado de domingo da alegria (gaudete, em latim) por causa da antífona de entrada da missa (Alegrai-vos sempre no Senhor), mostrando a alegria da proximidade da celebração do Natal.

·         O tempo do Advento se divide em duas partes. A primeira, que vai até o dia 16 de dezembro, é marcada pela espera alegre da segunda vinda de Jesus. A segunda, os dias que antecedem o Natal, se destaca pela recordação sobre o nascimento de Jesus em Belém.

As figuras Bíblicas principais do Advento

·         Dois personagens bíblicos importantes na celebração do Advento: Maria e João Batista.

·         Ela, a escolhida por Deus para ser a mãe do Salvador.

·         Ele, porque foi o precursor do Messias.

·         Ela, modelo de humildade, obediência e fé na Palavra de Deus.

·         Ele, modelo de esperança nas promessas de Deus.

·         Ela, modelo do coração que sabe acolher e gerar a Palavra do Pai, Jesus.

·         Ele, modelo de ação, anúncio e preparação da chegada da salvação.

·         Em ambos se manifesta a realização da esperança messiânica judaica e o anúncio da plenitude dos tempos.

A Espiritualidade do Advento (é marcada por algumas atitudes básicas) Estar “Atentos e vigilantes”

1.       Preparação para receber o Cristo: A preparação para receber o Senhor se dá na vivência da conversão e da ascese. Precisamos ter um olhar atento sobre nós e a realidade que nos cerca e nos empenharmos para correspondermos com a ação do Espírito de Deus que quer restaurar todas as coisas.

2.       Oração: “Orai a todo momento”.

·         Este tempo é marcado por uma vivência mais profunda da vida de oração. Tempo de dedicação a Leitura Orante da Palavra de Deus (Lectio Divina), assim o cristão vivência e penetra no Mistério do Natal.

·         A leitura orante: A Sagrada Escritura nos coloca em contato com as profecias de salvação do Antigo Testamento; com a expectativa que os cristãos da Igreja primitiva tinham da Parusia; com os eventos principais que antecederam o nascimento de Jesus.

·         A recordação dos eventos que antecederam a primeira vinda de Cristo se torna a base da preparação da Igreja para o novo Advento do Senhor.

·         A Santa Missa e a Liturgia das Horas são os principais momentos celebrativos.

·         Os exercícios de piedade, como a oração e a meditação dos mistérios gozosos do Rosário, a oração do Angelus Domini e a Novena de Natal podem ser um caminho feliz para a vivência da oração comunitária neste tempo.

3.       Vivência da esperança cristã: O Advento nos propõe entendermos todas as coisas na sua relação com Deus e usarmos elas como meios de estarmos com Ele, colocando nossa esperança nas realidades que não passam. A esperança cristã supões uma boa consciência do relacionamento com o nosso corpo e os nossos afetos, com nossos familiares e pessoas íntimas, nossa participação na vida eclesial e social devem estar no foco de nossa atenção. A preparação para celebrar o Natal demanda uma confissão sacramental bem feita e um propósito firme de renovação interior.

O que diz o Catecismo sobre o Advento:


·         Na 1ª Vinda de Jesus Cristo? (Natal)


§ 522
A vinda do Filho de Deus à terra é um acontecimento de tal imensidão que Deus quis prepará-lo durante séculos. Ritos e sacrifícios, figuras e símbolos da "Primeira Aliança", tudo ele faz convergir para Cristo; anuncia-o pela boca dos profetas que se sucedem em Israel. Desperta, além disso, no coração dos pagãos a obscura expectativa desta vinda.
§ 523
São João Batista é o precursor imediato do Senhor, enviado para preparar-lhe o caminho. "Profeta do Altíssimo" (Lc; 1,76), ele supera todos os profetas, deles é o último, inaugura o Evangelho; saúda a vinda de Cristo desde o seio de sua mãe e encontra sua alegria em ser "o amigo do esposo" (Jo 3,29), que designa como "o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo" (Jo 1,29). Precedendo a Jesus "com o espírito e o poder de Elias" (Lc 1,17), dá-lhe testemunho por sua pregação, seu batismo de conversão e, finalmente, seu martírio.
§ 524
Ao celebrar cada ano a liturgia do Advento, a Igreja atualiza esta espera do Messias: comungando com a longa preparação da primeira vinda do Salvador, os fiéis renovam o ardente desejo de sua Segunda Vinda. Pela celebração da natividade e do martírio do Precursor, a Igreja se une a seu desejo: "É preciso que Ele cresça e que eu diminua" (Jo 3,30).

·         Na 2ª Vinda de Jesus Cristo e o juízo final? (Parusia)


§ 1040
O Juízo Final acontecerá por ocasião da volta gloriosa de Cristo. Só o Pai conhece a hora e o dia desse Juízo, só Ele decide de seu advento. Por meio de seu Filho, Jesus Cristo, Ele pronunciará então sua palavra definitiva sobre toda a história. Conheceremos então o sentido último de toda a obra da criação e de toda a economia da salvação, e compreenderemos os caminhos admiráveis pelos quais sua providência terá conduzido tudo para seu fim último. O Juízo Final revelará que a justiça de Deus triunfa de todas as injustiças cometidas por suas criaturas e que seu amor é mais forte que a morte.

Estela Márcia (Adaptações)

 

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Síntese para o encerramento do Ano da Fé



Baseada na Carta Encíclica LUMEN FIDEI, do Papa FRANCISCO

            Com alegria recebemos das mãos do Papa Francisco, em união com o Papa Emérito Bento XVI, a Lumen Fidei – Encíclica que coroou a proposta deste Ano da Fé. Trazendo em si uma síntese de nossa fé católica, a Encíclica abordou os aspectos fundamentados na Escritura e na Doutrina de nossos documentos, especialmente o Catecismo. Portanto vale a pena destacarmos brevemente alguns pontos cruciais referente ao títulos e subtítulos. A começar da riquíssima introdução, destacamos:

1.       A luz da fé é a expressão com que a tradição da Igreja designou o grande dom trazido por Jesus. Eis como Ele Se nos apresenta, no Evangelho de João: « Eu vim ao mundo como luz, para que todo o que crê em Mim não fique nas trevas » (Jo 12, 46). E São Paulo exprime-se nestes termos: « Porque o Deus que disse: "das trevas brilhe a luz", foi quem brilhou nos nossos corações » (2 Cor 4, 6).

2.       No mundo pagão, com fome de luz, tinha-se desenvolvido o culto do deus Sol, Sol invictus, invocado na sua aurora. Embora o sol renascesse cada dia, facilmente se percebia que era incapaz de irradiar a sua luz sobre toda a existência do homem. De fato, o sol não ilumina toda a realidade, sendo os seus raios incapazes de chegar até às sombras da morte, onde a vista humana se fecha para a sua luz.

A Fé ... Uma luz ilusória? Ou Uma luz a redescobrir?

1.       Nos tempos modernos, pensou-se que tal luz poderia ter sido suficiente para as sociedades antigas, mas não servia para os novos tempos, para o homem tornado adulto, orgulhoso da sua razão, desejoso de explorar de forma nova o futuro. Nesta perspectiva, a fé aparecia como uma luz ilusória, que impedia o homem de cultivar a ousadia do saber.

2.       A fé nasce no encontro com o Deus vivo, que nos chama e revela o seu amor: um amor que nos precede e sobre o qual podemos apoiar-nos para construir solidamente a vida. Transformados por este amor, recebemos olhos novos e experimentamos que há nele uma grande promessa de plenitude e se nos abre a visão do futuro.

3.       O Ano da Fé teve início no cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II. (...) O Concílio Vaticano II fez brilhar a fé no âmbito da experiência humana, percorrendo assim os caminhos do homem contemporâneo. Desta forma, se viu como a fé enriquece a existência humana em todas as suas dimensões.

4.       Na fé, dom de Deus e virtude sobrenatural por Ele infundida, reconhecemos que um grande Amor nos foi oferecido, que uma Palavra estupenda nos foi dirigida: acolhendo esta Palavra que é Jesus Cristo — Palavra encarnada –, o Espírito Santo transforma-nos, ilumina o caminho do futuro e faz crescer em nós as asas da esperança para o percorrermos com alegria.

 CAPÍTULO I - ACREDITAMOS NO AMOR (cf. 1 Jo 4, 16) - Abraão, nosso pai na fé

1.       Deus dirige-lhe a Palavra, revela-Se como um Deus que fala e o chama por nome. A fé está ligada à escuta. Abraão não vê Deus, mas ouve a sua voz.

2.       Esta Palavra comunica a Abraão uma chamada e uma promessa. Contém, antes de tudo, uma chamada a sair da própria terra, convite a abrir-se a uma vida nova, início de um êxodo que o encaminha para um futuro inesperado.

A fé de Israel

1.       A confissão de fé de Israel desenrola-se como uma narração dos benefícios de Deus, da sua ação para libertar e conduzir o povo (cf. Dt 26, 5-11); narração esta, que o povo transmite de geração em geração.

2.       Acreditar significa confiar-se a um amor misericordioso que sempre acolhe e perdoa, que sustenta e guia a existência, que se mostra poderoso na sua capacidade de endireitar os desvios da nossa história.

3.       A fé consiste na disponibilidade a deixar-se incessantemente transformar pela chamada de Deus (...) neste voltar-se continuamente para o Senhor, o homem encontra uma estrada segura que o liberta do movimento dispersivo a que o sujeitam os ídolos.

4.       A fé é um dom gratuito de Deus, que exige a humildade e a coragem de fiar-se e entregar-se para ver o caminho luminoso do encontro entre Deus e os homens, a história da salvação.

A plenitude da fé cristã

1.       A fé cristã está centrada em Cristo; é confissão de que Jesus é o Senhor e que Deus O ressuscitou de entre os mortos (cf. Rm 10, 9).

2.       Na fé, Cristo não é apenas Aquele em quem acreditamos, a maior manifestação do amor de Deus, mas é também Aquele a quem nos unimos para poder acreditar.

3.       A fé não só olha para Jesus, mas olha também a partir da perspectiva de Jesus e com os seus olhos: é uma participação no seu modo de ver.

4.       A fé no Filho de Deus feito homem em Jesus de Nazaré não nos separa da realidade; antes permite-nos individuar o seu significado mais profundo, descobrir quanto Deus ama este mundo e o orienta sem cessar para Si; e isto leva o cristão a comprometer-se, a viver de modo ainda mais intenso o seu caminho sobre a terra.

A salvação pela fé

1.       A salvação pela fé consiste em reconhecer o primado do dom de Deus, como resume São Paulo: « Porque é pela graça que estais salvos, por meio da fé. E isto não vem de vós, é dom de Deus » (Ef 2, 8).

2.       A nova lógica da fé centra-se em Cristo. A fé em Cristo salva-nos, porque é n’Ele que a vida se abre radicalmente a um Amor que nos precede e transforma a partir de dentro, que age em nós e conosco.

3.       São Paulo pode afirmar: « Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim » (Gl 2, 20), e exortar: « Que Cristo, pela fé, habite nos vossos corações » (Ef 3, 17). Na fé, o « eu » do crente dilata-se para ser habitado por um Outro, para viver num Outro, e assim a sua vida amplia-se no Amor.

 

4.       O cristão pode ter os olhos de Jesus, os seus sentimentos, a sua predisposição filial, porque é feito participante do seu Amor, que é o Espírito; é neste Amor que se recebe, de algum modo, a visão própria de Jesus. Fora desta conformação no Amor, fora da presença do Espírito que o infunde nos nossos corações (cf. Rm 5, 5), é impossível confessar Jesus como Senhor (cf. 1 Cor 12, 3).

A forma eclesial da fé

1.       O crente aprende a ver-se a si mesmo a partir da fé que professa. A figura de Cristo é o espelho em que descobre realizada a sua própria imagem.

2.       A imagem do corpo não pretende reduzir o crente a simples parte de um todo anônimo, a mero elemento de uma grande engrenagem; antes, sublinha a união vital de Cristo com os crentes e de todos os crentes entre si (cf. Rm 12, 4-5).

3.       Os cristãos sejam « todos um só » (cf. Gl 3, 28), sem perder a sua individualidade, e, no serviço aos outros, cada um ganha profundamente o próprio ser.

4.       A fé tem uma forma necessariamente eclesial, é professada partindo do corpo de Cristo, como comunhão concreta dos crentes.

CAPÍTULO II - SE NÃO ACREDITARDES, NÃO COMPREENDEREIS (cf. Is 7, 9)

 Fé e verdade
 
1.       Sem verdade, a fé não salva, não torna seguros os nossos passos.

2.       Na cultura contemporânea, tende-se frequentemente a aceitar como verdade apenas a da tecnologia: é verdadeiro aquilo que o homem consegue construir e medir com a sua ciência; é verdadeiro porque funciona, e assim torna a vida mais cômoda e aprazível.

Conhecimento da verdade e amor

1.       A fé transforma a pessoa inteira, precisamente na medida em que ela se abre ao amor; é neste entrelaçamento da fé com o amor que se compreende a forma de conhecimento própria da fé, a sua força de convicção, a sua capacidade de iluminar os nossos passos.

2.       A compreensão da fé é aquela que nasce quando recebemos o grande amor de Deus, que nos transforma interiormente e nos dá olhos novos para ver a realidade.

3.       Sem a verdade, o amor não pode oferecer um vínculo sólido, não consegue arrancar o « eu » para fora do seu isolamento, nem libertá-lo do instante fugidio para edificar a vida e produzir fruto.

4.       Quem ama, compreende que o amor é experiência da verdade, compreende que é precisamente ele que abre os nossos olhos para verem a realidade inteira, de maneira nova, em união com a pessoa amada.

A fé como escuta e visão - O diálogo entre fé e razão

1.       O Beato João Paulo II, na sua carta encíclica Fides et ratio, mostrou como fé e razão se reforçam mutuamente.

2.       Neste movimento circular, a luz da fé ilumina todas as nossas relações humanas, que podem ser vividas em união com o amor e a ternura de Cristo.

3.       A fé desperta o sentido crítico, enquanto impede a pesquisa de se deter, satisfeita, nas suas fórmulas e ajuda-a a compreender que a natureza sempre as ultrapassa.

4.       Convidando a maravilhar-se diante do mistério da criação, a fé alarga os horizontes da razão para iluminar melhor o mundo que se abre aos estudos da ciência.

A fé e a busca de Deus

1.       O homem religioso procura reconhecer os sinais de Deus nas experiências diárias da sua vida, no ciclo das estações, na fecundidade da terra e em todo o movimento do universo. Deus é luminoso, podendo ser encontrado também por aqueles que O buscam de coração sincero.

2.       Quem se põe a caminho para praticar o bem, já se aproxima de Deus, já está sustentado pela sua ajuda, porque é próprio da dinâmica da luz divina iluminar os nossos olhos, quando caminhamos para a plenitude do amor.

Fé e teologia

1.       Como luz que é, a fé convida-nos a penetrar nela, a explorar sempre mais o horizonte que ilumina, para conhecer melhor o que amamos.

2.       Deste desejo nasce a teologia cristã; assim, é claro que a teologia é impossível sem a fé e pertence ao próprio movimento da fé, que procura a compreensão mais profunda da auto-revelação de Deus, culminada no Mistério de Cristo.

3.       A fé reta orienta a razão para se abrir à luz que vem de Deus, a fim de que ela, guiada pelo amor à verdade, possa conhecer Deus de forma mais profunda.

4.       Os grandes doutores e teólogos medievais declararam que a teologia, enquanto ciência da fé, é uma participação no conhecimento que Deus tem de Si mesmo.

CAPÍTULO III - TRANSMITO-VOS AQUILO QUE RECEBI - (cf. 1 Cor 15, 3) / A Igreja, mãe da nossa fé

1.       Quem se abriu ao amor de Deus, acolheu a sua voz e recebeu a sua luz, não pode guardar este dom para si mesmo.

2.       A transmissão da fé, que brilha para as pessoas de todos os lugares, passa também através do eixo do tempo, de geração em geração.

3.       Dado que a fé nasce de um encontro que acontece na história e ilumina o nosso caminho no tempo, a mesma deve ser transmitida ao longo dos séculos.

4.       Quem recebe a fé, descobre que os espaços do próprio « eu » se alargam, gerando-se nele novas relações que enriquecem a vida.

Os sacramentos e a transmissão da fé

1.       Como sucede em cada família, a Igreja transmite aos seus filhos o conteúdo da sua memória.

2.       É através da Tradição Apostólica, conservada na Igreja com a assistência do Espírito Santo, que temos contacto vivo com a memória fundadora.

3.       A transmissão da fé verifica-se, em primeiro lugar, através do Batismo. Sobre o catecúmeno é invocado, em primeiro lugar, o nome da Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo.

4.       Todas as verdades, em que cremos, afirmam o mistério da vida nova da fé como caminho de comunhão com o Deus Vivo.

Fé, oração e Decálogo - (NÓS)

1.       Há mais dois elementos que são essenciais na transmissão fiel da memória da Igreja. O primeiro é a Oração do Senhor, o Pai Nosso; nela, o cristão aprende a partilhar a própria experiência espiritual de Cristo e começa a ver com os olhos d’Ele.

2.       Igualmente importante é ainda a ligação entre a fé e o Decálogo ... o Decálogo adquire a sua verdade mais profunda, contida nas palavras que introduzem os Dez Mandamentos...

A unidade e a integridade da fé

1.       A unidade da Igreja, no tempo e no espaço, está ligada com a unidade da fé: « Há um só Corpo e um só Espírito, (...) uma só fé » (Ef 4, 4-5).

2.       Qual é o segredo desta unidade? A fé é una, em primeiro lugar, pela unidade de Deus conhecido e confessado.

3.       Depois, a fé é una, porque se dirige ao único Senhor, à vida de Jesus, à história concreta que Ele partilha conosco.

4.       Por último, a fé é una, porque é partilhada por toda a Igreja, que é um só corpo e um só Espírito: na comunhão do único sujeito que é a Igreja, recebemos um olhar comum.

CAPÍTULO IV - DEUS PREPARA PARA ELES UMA CIDADE (cf. Heb 11, 16)

A fé e o bem comum

1.       A luz da fé é capaz de valorizar a riqueza das relações humanas, a sua capacidade de perdurarem, serem fiáveis, enriquecerem a vida comum.

2.       A fé não afasta do mundo, nem é alheia ao esforço concreto dos nossos contemporâneos.

3.       A fé faz compreender a arquitetura das relações humanas, porque identifica o seu fundamento último e destino definitivo em Deus, no seu amor, e assim ilumina a arte da sua construção, tornando-se um serviço ao bem comum.

4.       Por isso, a fé é um bem para todos, um bem comum: a sua luz não ilumina apenas o âmbito da Igreja nem serve somente para construir uma cidade eterna no além, mas ajuda também a construir as nossas sociedades de modo que caminhem para um futuro de esperança.

A fé e a família

1.       O primeiro âmbito da cidade dos homens iluminado pela fé é a família; penso, antes de mais nada, na união estável do homem e da mulher no matrimônio.

2.       Tal união nasce do seu amor, sinal e presença do amor de Deus, nasce do reconhecimento e aceitação do bem que é a diferença sexual, em virtude da qual os cônjuges se podem unir numa só carne (cf. Gn 2, 24) e são capazes de gerar uma nova vida, manifestação da bondade do Criador, da sua sabedoria e do seu desígnio de amor.

3.       Fundados sobre este amor, homem e mulher podem prometer-se amor mútuo com um gesto que compromete a vida inteira e que lembra muitos traços da fé: prometer um amor que dure para sempre é possível quando se descobre um desígnio maior que os próprios projetos, que nos sustenta e permite doar o futuro inteiro à pessoa amada.

4.       A fé não é um refúgio para gente sem coragem, mas a dilatação da vida: faz descobrir uma grande chamada — a vocação ao amor — e assegura que este amor é fiável, que vale a pena entregar-se a ele, porque o seu fundamento se encontra na fidelidade de Deus, que é mais forte do que toda a nossa fragilidade.

Uma luz para a vida em sociedade

1.       A fé ensina-nos a ver que, em cada homem, há uma bênção para mim, que a luz do rosto de Deus me ilumina através do rosto do irmão.

2.       A fé ilumina a vida social: possui uma luz criadora para cada momento novo da história, porque coloca todos os acontecimentos em relação com a origem e o destino de tudo no Pai que nos ama.

Uma força consoladora no sofrimento

1.       Falar da fé comporta frequentemente falar também de provas dolorosas, mas é precisamente nelas que São Paulo vê o anúncio mais convincente do Evangelho, porque é na fraqueza e no sofrimento que sobressai e se descobre o poder de Deus que supera a nossa fraqueza e o nosso sofrimento.

2.       O cristão sabe que o sofrimento não pode ser eliminado, mas pode adquirir um sentido: pode tornar-se ato de amor, entrega nas mãos de Deus que não nos abandona e, deste modo, ser uma etapa de crescimento na fé e no amor.

3.       A luz da fé não nos faz esquecer os sofrimentos do mundo.

4.       A fé não é luz que dissipa todas as nossas trevas, mas lâmpada que guia os nossos passos na noite, e isto basta para o caminho.

FELIZ DAQUELA QUE ACREDITOU (cf. Lc 1, 45)

1.       A Mãe do Senhor é ícone perfeito da fé, como dirá Santa Isabel: « Feliz de ti que acreditaste » (Lc 1, 45).

2.       Na concepção virginal de Maria, temos um sinal claro da filiação divina de Cristo: a origem eterna de Cristo está no Pai — Ele é o Filho em sentido total e único — e por isso nasce, no tempo, sem intervenção do homem.

3.       Maria garantiu, ao Filho de Deus, uma verdadeira história humana, um a verdadeira carne na qual morrerá na cruz e ressuscitará dos mortos.

4.       Maria acompanhá-Lo-á até à cruz (cf. Jo 19, 25), donde a sua maternidade se estenderá a todo o discípulo de seu Filho (cf. Jo 19, 26-27).

5.       (Maria) Estará presente também no Cenáculo, depois da ressurreição e ascensão de Jesus, para implorar com os Apóstolos o dom do Espírito (cf. Act 1, 14).

6.       O movimento de amor entre o Pai e o Filho no Espírito percorreu a nossa história; Cristo atrai-nos a Si para nos poder salvar (cf. Jo 12, 32). No centro da fé, encontra-se a confissão de Jesus, Filho de Deus, nascido de mulher, que nos introduz, pelo dom do Espírito Santo, na filiação adoptiva (cf. Gl 4, 4-6).

A Maria, Mãe da Igreja e Mãe da nossa fé, nos dirigimos, rezando-Lhe:

“Ajudai, ó Mãe, a nossa fé. Abri o nosso ouvido à Palavra, para reconhecermos a voz de Deus e a sua chamada. Despertai em nós o desejo de seguir os seus passos, saindo da nossa terra e acolhendo a sua promessa. Ajudai-nos a deixar-nos tocar pelo seu amor, para podermos tocá-Lo com a fé. Ajudai-nos a confiar-nos plenamente a Ele, a crer no seu amor, sobretudo nos momentos de tribulação e cruz, quando a nossa fé é chamada a amadurecer. Semeai, na nossa fé, a alegria do Ressuscitado. Recordai-nos que quem crê nunca está sozinho. Ensinai-nos a ver com os olhos de Jesus, para que Ele seja luz no nosso caminho. E que esta luz da fé cresça sempre em nós até chegar aquele dia sem ocaso que é o próprio Cristo, vosso Filho, nosso Senhor.” No dia 29 de Junho, solenidade dos Apóstolos São Pedro e São Paulo, do ano 2013, primeiro de Pontificado - FRANCISCUS.

Estela Márcia (Síntese)