sexta-feira, 3 de maio de 2013

Santo Atanásio, rogai por nós! (02 de maio)

A encarnação do Verbo
        O Verbo de Deus, incorpóreo, incorruptível e imaterial, veio habitar no meio de nós, se bem que antes não estivesse ausente. De fato, nenhuma região do mundo jamais esteve privada de sua presença, porque, pela união com seu Pai, ele estava em todas as coisas e em todo lugar.
        Por amor de nós, veio a este mundo, isto é, mostrou-se a nós de modo sensível. Compadecido da fraqueza do gênero humano, comovido pelo nosso estado de corrupção, não suportando ver-nos dominados pela morte, tomou um corpo semelhante ao nosso. Assim fez para que não perecesse o que fora criado nem se tornasse inútil a obra de seu Pai e sua ao criar o homem. Ele não quis apenas habitar num corpo ou somente tornar-se visível. Se quisesse apenas tornar-se visível, teria certamente assumido um corpo mais excelente; mas assumiu o nosso corpo.
        Construiu no seio da Virgem um templo para si, isto é, um corpo; habitando nele, fê-lo instrumento mediante o qual se daria a conhecer. Assim, pois, assumindo um corpo semelhante ao nosso, e porque toda a humanidade estava sujeita à corrupção da morte, ele, no seu imenso amor por nós, ofereceu-o ao Pai, aceitando morrer por todos os homens. Deste modo, a lei da morte, promulgada contra a humanidade inteira, ficou anulada para aqueles que morrem em comunhão com ele. Tendo ferido o corpo do Senhor, a morte perdeu a possibilidade de fazer mal aos outros homens, seus semelhantes. Além disso, reconduziu o gênero humano da corrupção para a incorruptibilidade, da morte para a vida, fazendo desaparecer a morte – como a palha é consumida pelo fogo – por meio do corpo que assumira e pelo poder da ressurreição. Assumiu, portanto, um corpo mortal, para que esse corpo, unido ao Verbo que está acima de tudo, pudesse morrer por todos. E porque era habitação do Verbo, o corpo assumido tornou-se imortal e, pelo poder da ressurreição, remédio de imortalidade para toda a humanidade.
        Entregando à morte o corpo que tinha assumido, ele o ofereceu como sacrifício e vítima puríssima, libertando assim da morte todos os seus semelhantes; pois o ofereceu em sacrifício por todos.
        O Verbo de Deus, que é superior a todas as coisas, entregando e oferecendo em sacrifício o seu corpo, templo e instrumento da divindade, pagou com a sua morte a dívida que todos tínhamos contraído. Deste modo, o Filho incorruptível de Deus, tornando-se solidário com todos os homens por um corpo semelhante ao seu, tornou a todos participantes da sua imortalidade, a título de justiça com a promessa da imortalidade.
        Por conseguinte, a corrupção da morte já não tem poder algum sobre os homens, por causa do Verbo que por meio do seu corpo habita neles. (Dos Sermões de Santo Atanásio, bispo -Séc. IV)


quarta-feira, 1 de maio de 2013

SÃO JOSÉ ROGAI POR TODOS OS TRABALHADORES!



Papa na missa do 1° de maio:"Sociedade que não oferece trabalho ou explora os trabalhadores é injusta"

“A sociedade não é justa se não oferece a todos um trabalho ou explora os trabalhadores”. Foi o que afirmou o Papa Francisco na manhã deste 1º de maio, na missa celebrada na Capela da Casa Santa Marta, por ocasião da Festa de São José Operário. Estavam presentes alguns menores e jovens mães, hóspedes do Centro de Solidariedade “Il Ponte", criado em Civitavecchia em 1979, acompanhados pelo Presidente da associação, Padre Egidio Smacchia.

No Evangelho proposto pela Liturgia, Jesus é chamado ‘filho do carpinteiro’. José era um trabalhador e Jesus aprendeu a trabalhar com ele. Na primeira leitura lê-se que Deus trabalha para criar o mundo. Este “ícone de Deus trabalhador – afirma o Papa – nos diz que o trabalho é algo que vai além de simplesmente ganhar o pão”:

“O trabalho nos dá dignidade. Quem trabalha é digno, tem uma dignidade especial, uma dignidade de pessoa: o homem e a mulher que trabalham são dignos. Ao invés disto, aqueles que não trabalham não têm esta dignidade. Mas muitos são aqueles que querem trabalhar e não podem. Isto é um peso na nossa consciência, porque quando a sociedade é organizada desta maneira, onde nem todos têm a possibilidade de trabalhar, de serem elevados pela dignidade do trabalho, esta sociedade não está bem, não é justa. Vai contra o próprio Deus, que quis que a nossa dignidade começasse daqui”.

“A dignidade – prosseguiu o Papa – não é o poder, o dinheiro, a cultura que nos dá. Não! .... A dignidade nos dá o trabalho!” e um trabalho digno, porque hoje muitos “sistemas sociais, políticos e econômicos fizeram uma escolha que significa explorar a pessoa”:

“Não pagar aquilo que é justo, não dar trabalho, porque somente se olha aos balanços, aos balanços da empresa; somente se olha para o quanto eu posso aproveitar. Isto vai contra Deus. Quantas vezes – tantas vezes -, lemos isto no ‘L’Osservatore Romano’…. Uma manchete que me tocou muito, o dia da tragédia de Bangladesh, ‘Viver com 38 euros ao mês’: este era o pagamento destas pessoas que morreram....E isto se chama ‘trabalho escravo!’. E hoje no mundo existe esta escravidão que se faz com o que Deus deu ao homem de mais belo: a capacidade de criar, de trabalhar, de construir com isto a própria dignidade. Quantos irmãos e irmãs no mundo estão nesta situação por culpa destes comportamentos econômicos, sociais, políticos e assim por diante...”

O Papa cita um rabino da Idade Média que contava à sua comunidade hebraica sobre os acontecimentos da Torre de Babel: naquele tempo, os tijolos eram muito importantes:

“Quando um tijolo, por algum erro caía, era um grande problema, um escândalo: ‘Mas olha o que você fez!’. Mas se um daqueles que construía a torre caía: ‘Requiescat in pace!’ e o deixavam ali na maior tranquilidade.....Era mais importante o tijolo que a pessoa. Isto contava aquele rabino medieval e isto acontece hoje. As pessoas são menos importantes que as coisas que dão vantagens àqueles que tem o poder políticos, social, econômico. A que ponto chegamos? Ao ponto que não estamos conscientes desta dignidade da pessoa; esta dignidade do trabalho. Mas hoje a figura de São José, de Jesus, de Deus, que trabalham – este é o nosso modelo – nos ensinam o caminho para andar em direção à dignidade”.


terça-feira, 30 de abril de 2013

“Eu vos dou a minha PAZ”

«Eu deixo para vocês a paz, eu lhes dou a minha paz. A paz que eu dou para vocês não é a paz que o mundo dá. Não fiquem perturbados, nem tenham medo. 28 Vocês ouviram o que eu disse: ‘Eu vou, mas voltarei para vocês’. Se vocês me amassem, ficariam alegres porque eu vou para o Pai, pois o Pai é maior do que eu." (Jo 14,27-28)
Num profundo clima de entrega e de obediência ao Pai, Jesus apresenta aos seus discípulos o tema da Paz. Lembrando que ‘Paz’ para o Oriente denota algo muito intenso, completo e pleno de messianismo. Por isso Jesus fala de Paz e completa com a alegria. Sim, Paz e Alegria, plenitude de uma promessa concedida aos que esperavam a salvação. Paz tão bem anunciada pelo AT: “Como são belos sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia a paz, que traz a boa notícia, que anuncia a salvação, que diz a Sião: Seu Deus reina.” (Is 52,7) É essa Paz que Jesus pretende deixar para os seus.
E dessa Paz que só ele pode dar e que no mundo jamais se encontrará. O anúncio do Senhor precisa criar e desenvolver no coração dos discípulos de ontem e de hoje a certeza da tranqüilidade interior. Paz que se traduz em tranqüilidade que, mesmo diante das maiores tribulações da vida ou mesmo, dos intensos barulhos externos do mundo, o coração que a experimenta, renova-se e abstrai-se a cada instante sem se abalar.
A Paz renovadora que Jesus deixou aos seus é capaz de encorajá-los e robustecê-los, pois assim o prometeu o Senhor: “Não fiquem perturbados, nem tenham medo” (v.27c). É bom que saibamos que, além de repelir o medo, a Paz trazida pelo Senhor nos conduz a dignidade do amor e a plenitude da alegria, pois um e outro se alimentam da tranqüilidade que silencia o coração para ouvir melhor os conselhos do Senhor. E assim, a Paz, fruto do Espírito Santo, fortalece a alma e a enrijece para os diversos embates do dia-a-dia, porque enxerga com tranqüilidade a esperança da mudança na providência de Deus.
Atualizemos tais promessas e reconheçamos que, as perturbações poderão tentar-nos, mas jamais nos vencerão. Por isso ao tomarmos posse da Paz que Jesus veio nos trazer - com todas as prerrogativas a ela concedidas pelo Senhor para nós, devemos renunciar aos medos que nos impedem de avançarmos para o concreto de nossas vidas. Questionemo-nos, e retornemos ao caminho de Paz que até aqui trilhamos: Quais as áreas de nossas vidas estão necessitando de Paz? Quais são os medos que têm nos tirado a Paz? O que de mais concreto em nossa vida precisa de Paz?  Busquemos viver a Paz que o Senhor quer nos dar. Vivamos a alegria, cresçamos no Amor de Deus e deixemos que a Paz produza em nós os frutos a que se propõe.
Que o ‘Príncipe da Paz’ nos encha de sua Paz e nos faça transbordar de Sua alegria! Louvado seja Deus!
                                                                                                                                                                                 Estela Márcia

Papa Francisco: "Rezar pela Igreja para que fortaleça o anúncio do Evangelho"

“Quando a Igreja se torna mundana, se torna fraca.” Disse o Papa Francisco na homilia pronunciada esta manhã durante a Missa celebrada na Capela da Casa Marta.
O Papa destacou o ato de entrega da Igreja ao Senhor, exortando todos à oração.
“Nós rezamos pela Igreja, mas por toda a Igreja? Pelos nossos irmãos que não conhecemos em todo o mundo? É a Igreja do Senhor e nós, na nossa oração, dizemos ao Senhor: Senhor, protege a tua Igreja... Ela é Tua. A tua Igreja são os nossos irmãos. Esta é uma oração que nós devemos fazer do coração, sempre mais ".
É fácil rezar para pedir uma graça ao Senhor, para agradecer-Lhe ou quando precisamos de algo, disse o Papa. Todavia, é fundamental rezar por todos:
"Confiar a Igreja ao Senhor é uma oração que a faz crescer. É também um ato de fé. Nós não temos poder, somos pobres servidores – todos – da Igreja. Ele pode levá-la adiante, protegê-la e fazê-la crescer, defendê-la de quem quer que a Igreja se torne mundana. Este é o maior perigo! Quando a Igreja se torna mundana, quando tem dentro de si o espírito do mundo, quando tem aquela paz que não é a do Senhor, ela é fraca, é uma Igreja que será derrotada e será incapaz de levar o Evangelho, a mensagem da Cruz, o escândalo da Cruz... Não pode levá-lo adiante se é mundana."
Por isso, é importante entregar-se ao Senhor, confiar a Ele a Sua Igreja, os idosos, os doentes, as crianças, os jovens… Confiar a Igreja que passa por tribulações, como as perseguições, por exemplo. Mas há também pequenas tribulações: como as doenças ou os problemas familiares. Devemos entregar tudo isso ao Senhor, para não perder a fé e a esperança.
"Fazer esta oração de entrega pela Igreja – concluiu – nos fará bem e fará bem à Igreja. Dará grande paz a nós e grande paz a Ela, não nos tirará das tribulações, mas nos fará forte nas tribulações."

Despedida e promessa de Jesus no Evangelho de São João 14,1-31


“Jesus continuou dizendo: «Não se perturbe o vosso coração. Acreditem em Deus e acreditem também em mim. Existem muitas moradas na casa de meu Pai. Se não fosse assim, eu lhes teria dito, porque vou preparar-vos um lugar. 3 E quando eu for e lhes tiver preparado um lugar, voltarei e os levarei comigo, para que onde eu estiver, estejais vós também (...)”
            A reflexão de todo o capítulo 14 do Evangelho de São João precisa nos levar a confirmar tudo o que fora ensinado por Jesus em sua vida pública, e ainda, renovar a força da Sua Palavra e da obediência ao mandamento do amor. Se por um lado, O vemos dando continuidade a despedida que havia começado na Última Ceia (Conf. Jo13), agora O veremos também na contundente apresentação do Pai e das promessas que virão para aqueles que Lhes obedecerem, o Espírito Santo - o Advogado (v.16), o Espírito da Verdade (v.17). Este momento de Jesus com os seus discípulos é de grande revelação da Sua missão. Como enviado da parte do Pai, Ele veio para ser ‘o Caminho, a Verdade e Vida’ que leva ao Pai (v.6), e assim também apresentar o Pai aos que Nele crerem, ‘Se vocês me conhecem, conhecerão também o meu Pai. Desde agora vocês o conhecem e já o viram (v.7)’.
            Percebendo a expectativa e a ansiedade dos discípulos diante da suposta traição de um deles, Jesus procura tranqüilizar-los e fortalecê-los na fé. Dando-lhes garantia e esperança de que a despedida e as recomendações que fazia não acabariam ali - teria um posterior encontro, Ele fala-lhes da casa de Seu Pai: “Não se perturbe o vosso coração. Acreditem em Deus e acreditem também em mim. Existem muitas moradas na casa de meu Pai. Se não fosse assim, eu lhes teria dito, porque vou preparar-vos um lugar. E quando eu for e lhes tiver preparado um lugar, voltarei e os levarei comigo, para que onde eu estiver, estejais vós também.” (Jo 14,1-3)
            Despedidas a parte, três dos seus discípulos O interpelam porque percebem um algo a mais em suas palavras: Tomé (v.5), «Senhor, nós não sabemos para onde vais; como podemos conhecer o caminho?» por Filipe (v.8), «Senhor, mostra-nos o Pai e isso basta para nós.» e Judas - não o Iscariotes (v.22), «Senhor, por que vais manifestar-te a nós e não ao mundo?» Diante desses questionamentos, em momentos diferentes de sua fala, Jesus não hesitou em falar de Sua unidade com o Pai: revelando-lhes uma vida futura junto Dele e do Pai; confirmando-lhes que a Sua presença é também a presença do Pai; que a Sua intima união com o Pai exige fé e confiança para realizarem as obras que Ele realizou; que em seu Nome o Pai os atenderá; e que o amor a Ele e aos mandamentos serão a chave para que o Espírito Santo que os une – Pai e Filho, possa vir em socorro as suas necessidades, “ Essas são as coisas que eu tinha para dizer estando com vocês. Mas o Advogado, o Espírito Santo, que o Pai vai enviar em meu nome, ele ensinará a vocês todas as coisas e fará vocês lembrarem tudo o que eu lhes disse.» (vv. 25-26)
            Peçamos a Jesus que nos envie da parte do Pai o Espírito Santo, a fim de aumentar em nós o amor a Sua Palavra, a obediência aos mandamentos e a fé que nos capacite a viver nos preparando todos os dias para a morada que Ele foi preparar-nos na casa do Pai.  
 Estela Márcia

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Salve 29 de abril! Dia de Santa Catarina de Sena, Virgem e Doutora da Igreja (1347-1380)

Catarina de Sena era apenas uma irmã leiga da Ordem Terceira Dominicana. Mesmo analfabeta, talvez tenha sido a figura feminina mais impressionante do cristianismo do segundo milênio.
Nasceu no dia 25 de março de 1347, em Sena, na Itália. Seus pais eram muito pobres e ela era uma dos vinte e cinco filhos do casal. Fica fácil imaginar a infância conturbada que Catarina teve.
Além de não poder estudar, cresceu franzina, fraca e viveu sempre doente. Mas, mesmo que não fosse assim tão debilitada, certamente a sua missão apostólica a teria fragilizado. Carregava no corpo os estigmas da Paixão de Cristo.  
Desejando seguir o caminho da perfeição, aos sete anos de idade consagrou sua virgindade a Deus. Tinha visões durante as orações contemplativas e fazia rigorosas penitências, mesmo contra a oposição familiar.
Aos quinze anos, Catarina ingressou na Ordem Terceira de São Domingos. Durante as orações contemplativas, envolvia-se em êxtase, de tal forma que só esse fato possibilitou que convertesse centenas de almas durante a juventude. Já adulta e atuante, começou por ditar cartas ao povo, orientando suas atitudes, convocando para a caridade, o entendimento e a paz. Foi então que enfrentou a primeira dificuldade que muitos achariam impossível de ser vencida: o cisma católico.
Dois papas disputavam o trono de Pedro, dividindo a Igreja e fazendo sofrer a população católica em todo o mundo. Ela viajou por toda a Itália e outros países, ditou cartas a reis, príncipes e governantes católicos, cardeais e bispos, e conseguiu que o papa legítimo, Urbano VI, retomasse sua posição e voltasse para Roma. Fazia setenta anos que o papado estava em Avignon e não em Roma, e a Cúria sofria influências francesas.
Outra dificuldade, intransponível para muitos, que enfrentou serenamente e com firmeza, foi a peste, que matou pelo menos um terço da população européia. Ela tanto lutou pelos doentes, tantos curou com as próprias mãos e orações, que converteu mais algumas centenas de pagãos. Suas atitudes não deixaram de causar perplexidade em seus contemporâneos.
Em meio a tudo isso, deixou obras literárias ditadas e editadas de alto valor histórico, místico e religioso, como o livro "Diálogo sobre a Divina Providência", lido, estudado e respeitado até hoje. Catarina de Sena morreu no dia 29 de abril de 1380, após sofrer um derrame aos trinta e três anos de idade. Sua cabeça está em Sena, onde se mantém sua casa, e seu corpo está em Roma, na Igreja de Santa Maria Sopra Minerva. Foi declarada "doutora da Igreja" pelo papa Paulo VI em 1970.

Trecho do ‘Diálogo sobre a divina Providência, de Santa Catarina de Sena’

Provei e vi
        Ó Divindade eterna, ó eterna Trindade, que pela união da natureza divina tanto fizeste valer o sangue de
teu Filho unigênito! Tu, Trindade eterna, és como um mar profundo, onde quanto mais procuro mais encontro; e quanto mais encontro, mais cresce a sede de te procurar. Tu sacias a alma, mas de um modo insaciável; porque, saciando-se no teu abismo, a alma permanece sempre sedenta e faminta de ti, ó Trindade eterna, cobiçando e desejando ver-te à luz de tua luz.

        Provei e vi em tua luz com a luz da inteligência, o teu insondável abismo, ó Trindade eterna, e a beleza de tua criatura. Por isso, vendo-me em ti, vi que sou imagem tua por aquela inteligência que me é dada como participação do teu poder, ó Pai eterno, e também da tua sabedoria, que é apropriada ao teu Filho unigênito. E o Espírito Santo, que procede de ti e de teu Filho, deu-me a vontade que me torna capaz de amar-te.
        Pois tu, ó Trindade eterna, és criador e eu criatura; e conheci – porque me fizeste compreender quando de novo me criaste no sangue de teu Filho – conheci que estás enamorado pela beleza de tua criatura.
        Ó abismo, ó Trindade eterna, ó Divindade, ó mar profundo! Que mais poderias dar-me do que a ti mesmo? Tu és um fogo que arde sempre e não se consome. Tu és que consomes por teu calor todo o amor profundo da alma. Tu és de novo o fogo que faz desaparecer toda frieza e iluminas as mentes com tua luz. Com esta luz me fizeste conhecer a verdade.
        Espelhando-me nesta luz, conheço-te como Sumo Bem, o Bem que está acima de todo bem, o Bem feliz, o Bem incompreensível, o Bem inestimável, a Beleza que ultrapassa toda beleza, a Sabedoria superior a toda sabedoria. Porque tu és a própria Sabedoria, tu,o pão dos anjos, que no fogo da caridade te deste aos homens.
        Tu és a veste que cobre minha nudez; alimentas nossa fome com a tua doçura, porque és doce sem amargura alguma. Ó Trindade eterna!